Escrever é uma forma de vida que não pode ser simulada. É como o acender de um fósforo – quanto mais forçado e desesperado o acto, menos provável. É quase no momento da derrota, no último restinho do consumo do pavio da esperança, no limiar do partir o fósforo ao meio, no segundo antes do aceitar que ‘este já era, que venha o próximo’ – é aí que surge a magia. E sabe ‘tão mais melhor’ assim.
Escrever é assim. É impulsionado por tudo e mais alguma coisa – quando tem de ser. Ter de ser não é quando queremos. Ter de ser é quando o universo proporciona. O acaso.
A inspiração nunca poderá ser comprada. Consola-me saber isso – que ainda há alguma coisa que não se arranja a trocar de uns trocos.
E hoje percebi. Há meses afio que ela não me visitava. E foi, na minha ocasião mais desprevenida, que a vi entrar de novo por esta porta sem bater, qual velha amiga que dispensa apresentações e cerimónias.
Observei um reflexo que eu própria instiguei: o esforço de um objecto em luta para se manter erguido. Um objecto por mim colocado numa situação desconfortável por culpa do subconsciente, que involuntária e inesperadamente despoletou o meu êxodo.
Balançar. Nunca o fiz. Sempre o contemplei, nunca o alcancei.
Tudo quero e nada quero. Tudo quero mas nada faço para ter. Nada quero e secretamente é isso que desejo. Bato, defendo-me com unhas e dentes, cuspo-lhe nos olhos – tu, sim tu. Força que me puxa para seguir o que em segredo me cativa. Vontade de ir e descobrir. Vontade de ficar e nunca avançar.
Nada fiz e ainda assim fiz demasiado. Memórias que parecem agora meras fantasias, produtos duma mente abstraída em sonhos e pesadelos constantes.
Amei. Para quê? Preferia não o ter. Ser e não ser. Viver e não sentir não é viver – então não quero ser. Tive-o e perdi-o. Tenho-o e a única coisa a fazer é deixá-lo ir e esperar que volte.
Se cresci? Sinto-me mais pequena hoje do que em toda a minha vida.
Neguei-me para agradar aos que me deviam querer na minha essência, sem enfeites e embrulhos e rodeios. Simplesmente eu. Crua e despida. E talvez isso ainda não tenha encontrado, na saga desta busca imóvel que toma lugar no cenário dos meus dias.
Já nem sei quem sou. Já nem sei quem és. Perdi a minha arte numa tentativa louca de te ter a ti em troca. Para quê? Para quê ter quem amar quando não se é…?
Não pára e nunca fica mais fácil. Sentir é isto. É dor que vai e vem. Mói mas não mata. Corrói, isso sim.
Se calhar nunca vivi. Sempre presa a um futuro que pode não chegar. E, se chegar – olharei para trás com paz e satisfação sabendo que antes não soube ser? Simplesmente ser, na totalidade do que tal implica. De que vale inspirar e expirar em função duma promessa? As promessas foram feitas para ser quebradas. Se esta for excepção, que seja. E ámen a isso. Mas o futuro e o passado têm o seu lugar e ainda não lhes pertenço.
Hoje percebi. Respirar por ti não é razão que me deva chegar.
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